O link com o futebol italiano vai parecer forçado. E é. Mas é que é duro aguentar... Quando a Juventus foi rebaixada à série B do Campeonato Italiano com pontuação negativa e ainda teve dois títulos cassados houve quem dissesse, neste blog, que aquilo era um baita exemplo de impunidade.
Quem nos dera aquele fosse o melhor e mais próximo exemplo de impunidade. Ontem o senado brasileiro garantiu que a instituição continue sendo dirigida por um presidente do mesmo nível que ela — e pelo menos nesse sentido, ninguém pode acusar de incoerentes os nossos senadores.
A Juve, mesmo punida, se recuperou rapidinho. O senado brasileiro, sempre impune, não se recuperará nunca.
Mas deixa, vamos voltar a falar do Materazzi, que perto do Renan é uma Madre Tereza. A gente ganha mais e se irrita menos.
Luca Toni, Inzaghi e Quagliarella já haviam decidido jogos das eliminatórias da Eurocopa para a Itália com uma doppietta. Nesta quarta foi a vez de Di Natale, autor dos dois gols na importantíssima vitória por 2 x 1 sobre a Ucrânia, fora de casa. E a festa azzurra só não foi maior (ainda que muita gente não se dê conta disso) porque a França, mesmo jogando em Paris, foi derrotada por 1 x 0 para a Escócia. Rivalidade contra os franceses à parte, explico no fim do texto porque o resultado de Paris foi tão ruim.
Antes, uma pincelada nos titulares da Azzurra de hoje. Buffon continua espetacular, decidindo quando precisa. Foi assim depois que Barzagli (que, coitado, até fazia um bom jogo) resolveu entregar um gol justamente nos pés de Shevchenko. E Cannavaro levou o terceiro cartão amarelo, algo grave para um time que já não conta com Nesta e Materazzi. Mais um motivo para Panucci, que mostrou ainda dar pro gasto, continuar na seleção, possivelmente deslocado para a zaga. Na outra lateral, Zambrotta mostrou que pode funcionar muito bem jogando como meio-campista aberto pela esquerda e não na lateral; depois que a Itália sofreu o 1 x 1, ele se mandou com qualidade ao ataque. Perrotta, que para mim não é titular nem na Roma, mais uma vez mostrou que é um pecado deixar jogadores como De Rossi ou Aquilani no banco para escalá-lo. Ambrosini eu até gostava de discutir, não discuto mais; aliás, foi dele o passe para o segundo gol. Pirlo mostrou, de novo, ser o cérebro da seleção; titular incontestável. Camoranesi pode ser útil, mas não indispensável. A exemplo de Di Natale, apesar da doppietta. E Iaquinta, alguém já exagerou aqui quando publiquei aqueles cartazes festivos da Nike no dia 9/8, é pior que uma pera (maldade...).
Subjetividade à parte, vamos à matematica. Os pontos e os últimos três jogos das ainda candidatas às duas vagas: Escócia, Itália e França.
1) Escócia (21 pontos): 13/10 - Escócia x Ucrânia 17/10 - Geórgia x Escócia 17/11 - Escócia x Itália
2) Itália (20 pontos): 13/10 - Itália x Geórgia 17/11 - Escócia x Itália 21/11 - Itália x Ilhas Faroe
3) França (18 pontos): 13/10 - Ilhas Faroe x França 17/10 - França x Lituânia 21/11 - Ucrânia x França
E agora, a análise da situação. Se a França (que ainda está na situação mais confortável da chave) tivesse ao menos empatado com a Escócia, a Itália ficaria numa situação tranquila porque, considerando que ganhará das babas Geórgia e Ilhas Faroe, jogaria por um empate fora de casa com os escoceses (levaria vantagem no confronto direto). Agora, muito provavelmente, a Itália precisará vencer a Escócia: isso porque a França deve ganhar seus três jogos (pegará os ucranianos fora da parada) e chegar aos 27 pontos. Se a Itália ganhar seus jogos fáceis e empatar com a Escócia, também irá a 27 pontos, mas perderá dos franceses no critério de desempate. Assim, para poder jogar por um empate contra a Escócia, a Itália terá que torcer por um tropeço dos escoceses contra Ucrânia ou Geórgia. Não é impossível, mas depois do feito escocês desta quarta, parece pelo menos improvável.
Em tempos de crise (ou quase) na seleção italiana, Totti e sua opção de abandonar a Azzurra voltam a ser tema, claro. Então aproveito para postar aqui um trecho traduzido de uma coluna do sempre ótimo Candido Cannavò. É curto, mas a mais precisa análise do episódio que já li por aí.
"O episódio Totti tem como pano de fundo o Eldorado de Roma, do qual Francesco fez seu reino e também sua prisão. Caso atípico que entristece quem como eu vê um campeão de altíssimo valor negar a si próprio uma adequada projeção internacional, mas que comove os romanos até as lágrimas. Roma e a Roma para Totti são o máximo da sua vida, que inclui, naturalmente, seu magistério esportivo. Ele é o soberano que reina com uma bela rainha e dois pequenos herdeiros que sorriem ao povo. Ninguém jamais se permitirá discutir o que Totti decide fazer, nem seus deslizes e erros. Mais do que impunidade, em Roma Totti desfruta de sacralidade. Na seleção italiana era apenas o melhor; mas na verdade um líder discutido, nervoso e substancialmente ausente. Ele não absorveu os traumas desse salto existencial."
O ARTILHEIRO EDITOR, A FAXINEIRA IMPLACÁVEL E AS VAIAS
Primeiro, obrigado pelos comentários no post abaixo. Relevantes, como sempre. Segundo, desculpem, sei que havia prometido publicar as notas da Gazzetta dello Sport para os jogadores de Itália 0 x 0 França. Acontece que a Renata, minha faxineira mais implacável que Marco Materazzi, tratou rapidamente de dar um sumiço na edição de domingo do jornal. Restou-me a de segunda, pela qual concluí que Pirlo foi o melhor entre os italianos (Vieria o foi entre os franceses) e Del Piero, o pior. Nada mais.
Mas acho que as notas da Gazzetta já nem eram tão relevantes. Mais relevante foi uma certa nota do "Corriere di Livorno", jornal cuja primeira edição saiu justamente no último domingo, um dia depois de Itália x França. O dono do novo jornal é o atacante Cristiano Lucarelli, ex-ídolo do Livorno, hoje jogador do Shakhtar Donestk e da seleção italiana.
Pois bem: logo na primeira edição, os editores de esportes do jornal não pouparam a chefia: tascaram-lhe uma nota 5,5, classificada como "insuficiente" no jogo contra os franceses. E assim, se não deu um exemplo de competência em campo, Lucarelli pelo menos mostrou que ninguém pode acusá-lo de parcialidade jornalística. Certos magnatas da mídia italiana bem que podiam aprender com ele...
As vaias para a Marselhesa Eu pretendia colocar aqui o vídeo com os melhores momentos do jogo. Mas foram poucos. E assim, infelizmente, o que mais rendeu comentários na partida foram as estúpidas vaias da torcida do San Siro ao hino francês. Então, aí vão os "melhores momentos" da transmissão da RAI. Curioso notar duas coisas:
1) Como o editor de imagens opta por mostrar nas tribunas o (suspenso) técnico francês Raymond Domenech. Como que atribuindo a ele e a suas inúmeras frases infelizes a culpa das vaias. Não gosto de Domenech, de sua empáfia, arrogância e, por que não, idiotice. Mas infelizemente ele não é o culpado pela imbecilidade dos torcedores - o que, aliás, é a cada dia mais redundância no futebol.
2) Como o comentarista da RAI trata imediatamente de pedir desculpas aos franceses pelo episódio, lamentando o fato com um convincente desapontamento. E aí fiquei pensando como agiria um certo narrador brasileiro se algo parecido ocorresse antes de Brasil x Argentina no Morumbi. É amigo...